Jovens investem no Campo

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jovens investem no campo

Em Pernambuco, dos 40 mil agricultores familiares, 14% são jovens, de acordo com dados do Instituto Agronômico, IPA. Mesmo tendo a oportunidade de migrar e mudar a atividade, esses produtores preferem o trabalho e a vida do campo.

Todo dia Késia Azevedo, 30 anos, faz tudo igual. Pouco depois de o sol acordar, ela levanta, solta as galinhas no quintal e coloca água e ração. O silêncio da casa simples em Quipapá, Zona da Mata do Estado é roubado pelos cacarejos das 300 aves criadas por ela. É ali, a 180 quilômetros de Recife e numa área de hectare, que a zootecnista resolveu ser contraste e seguir um rumo diferente de seus familiares, que se dedicam ao funcionalismo público. “No começo eles não entendiam, mas depois me apoiaram”, diz, relembrando o apoio financeiro de R$ 5 mil dado pelos pais para montar o pequeno negócio. A vida no campo, reforça, é tranquila e garante sustento dos sonhos. Ela não está sozinha, pois esse tem sido o caminho feito por muitos jovens do País. Em Pernambuco, dos 40 mil agricultores familiares, 15% são jovens, de acordo com Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA).

“Essa foi uma forma que encontrei para dar continuidade ao meu projeto e de me manter. A escolha pela avicultura, amadurecida durante os cinco anos no curso de Zootecnia, aconteceu pelo espaço que tenho em casa, já que não havia possibilidade de comprar outra propriedade”, explica. Dos R$ 2 mil de rendimentos mensais, parte é retirada para investir no pequeno negócio e parte vai para poupança. A nova empreendedora pensa em expandir o mercado de vendas e abatidas. “Como faço para vender? Bato na porta das pessoas e ofereço”. Afirma.

A facilidade com a comercialização não veio á toa. Está no sangue, garante. É que o avô de Késia foi produtor de leite na região. Assim como o avô na época, a jovem se dedica quase que exclusivamente ao comércio. “Nas horas vagas, estudo”, acrescenta.

Os anos de trabalho rederam um plantel volumoso de negócios. Por mês, 300 galinhas são abatidas e 900 ovos são vendidos para a vizinhança local. “Que tenta barganhar ao máximo o valor dos produtos em função da crise”, se diverte ao comentar que, de fato, seus produtos são mais caros que os do mercado tradicional, “é que a minha produção é artesanal e demora um pouco para ganhar produtividade”, frisa.

Késia faz parte de um universo cada vez maior de jovens que não querem sair de onde moraram para trabalhar. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com informações do último censo, mostram a população de jovens entre 23 e 29 anos que migrou para outra região em busca de emprego não chega a 15% da população que se encontrava nessa faixa etária. Ressalta-se também que o jovem não migrante apresenta maior escolaridade do que aqueles que optaram por migrar para outra cidade.

O produtor de bananas do mesmo município, Cristiano de Melo, 33 anos, é exemplo disso. Preferiu ficar no campo, terminar os estudos e se capacitar. Herdeiro da produção rural, Melo é filho de agricultores com primeiro grau completo. Após a morte dos pais, e assumiu os 111 hectares de terra e deu continuidade ao que os pais levaram décadas para erguer. Questionado sobre o que mudou entre duas épocas, o jovem empreendedor foi taxativo: “ a insistência da seca”.

De tão quente a seca, plantar na região exige expertise e cuidados para evitar que mais hectares de terra sejam dizimados. “Foi ai que precisei me capacitar para sobreviver. Atualmente, uso o sistema de aspersão para irrigar as lavouras. Isso me permite economizar água”, explica, destacando que tenta conseguir financiamento bancário para implantar micro aspersores em suas terras. Este ponto, de acordo com ele, é um dos maiores entraves para um jovem que deseja empreender. “Sentimos a dificuldade de negociar com as instruções. Acredito ser diferente parar os grandes produtores”, pontua. Continuar aposentado no próprio negócio é algo bastante defendido pelos especialistas, uma vez que ‘eficientiza’ o processo produtivo e aumenta as receitas do pequeno empresário. Se Cristiano conseguir o financiamento de R$ mil, a economia de água pode chegar as 80% em uma época em que o recurso equivale a ouro no nordeste.

Desemprego desestimula mudança

A permanência dos jovens no campo tem a ver, dentre tantos fatores, com a falta de perspectiva nos grandes centros urbanos. É que, com a elevação da taxa de desemprego, apostar virou risco e deixar tudo pra trás custa caro. “Os jovens são encantados com o que o urbanos pode oferecer. Nós, ao contrário mostramos o valor da atividade agrícola para economia, responsável por gerar por um quarto do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil”, explica o supervisor de treinamento do Serviço nacional de Aprendizagem Rural de Pernambuco (Senar-PE), Adriano Pontes. O ponto de vista dele é endossado pelos dados da confederação da Agricultura (CNA), que em termos setoriais, mostra que os ganhos mais significativos com relação a expansão no nível de emprego foram nos setores da agricultura (0,70%) e da indústria da transformação (0,24%), no começo deste ano.

Na visão de Pontes, a representatividade do setor no quadro econômico nasce a partir da informação de capacitação do produtor rural. “Capacitamos mais de mil pessoas de 2010 para cá por, meio de 140 cursos”, destaca, pontuando que a formação profissional aborda assuntos que vão da agroindústria até a prestação de serviços. Gerente do departamento de educação profissional do IPA, Milze da Luz revela que a ação de extensão rural tem estimulado os jovens a aperceberem a potencialidades da sua região. “Além de ajudarmos na organização apoiamos com as deliberações de políticas públicas. Oferecemos também palestras, cursos e treinamentos”, lista ressaltando cases de empreendedorismo no Estado, a exemplo de Petrolândia, Itacuruba e Jatobá, onde nativos com menos de 30 anos apostam na piscicultura.

Fonte: Folha de Pernambuco
Texto: Raquel Freitas
Foto: Felipe Ribeiro